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De volta pra casa

Ao atravessar o corredor em direção ao banheiro, uma imagem fere sua retina. Para com o pé direito suspenso entre o prosseguir e o voltar. Um quase nada basta para que se decida. Meio passo de marcha à ré, um giro de 45 graus à direita e está frente a frente com Maria Emília.

Diante do espelho de vidro biseauté, reconhece-se. Lábios pálidos, ainda sem o batom vermelho que passou a usar depois dos 40. Cabelo insone, da cor e corte sugeridos pelo cabeleireiro. Nariz aquilino, herança das invasões bárbaras na descendência dos Almeidas. Leve flacidez da pele ao redor da boca. Fragilidade no olhar azul, marcado de zelos.

– Mãe, você já lavou minha saia jeans?

– Querida, que horas são?

A voz da filha e do marido a fazem despertar. Já são sete horas, de um dia que não será como outro qualquer. “Santo Expedito, me ajude!”, pede em silêncio ao ungido de sua devoção.

Entra no banheiro e começa a se despir. Outra vez, um espelho. Cruel e devastador como um inimigo, sobre a pia, por toda a parede, encimado por lampadinhas de camarim.

Desabotoa a camisa do pijama. Despida da cintura para cima, seminua, Maria Emília e seu corpo se defrontam. Sobre a magra caixa torácica, os seios, decompostos em mamas, já não são firmes ou cheios.

Veste-se rapidamente e sai sem que a vejam. Entra no carro e acelera em direção ao passado. “Alzheimer. Em pouco tempo, ela nem vai saber que você é sua filha”, diagnosticara o geriatra. 

As palavras do médico lhe deram o conforto de não precisar mais fingir que a amava. O dinheiro da aposentadoria era suficiente para pagar a casa de repouso. Ia vê-la uma vez por semana e abreviava a visita por causa da família ou do trabalho. 

Mas, naquele dia, a mãe lhe parecera envelhecida. Tivera o desejo de abraçá-la, como no tempo em que se é apenas filha. Foi quando seu olhar a encontrou. “Maria Emília, vamos pra casa?”

A casa de repouso ainda estava às escuras. Estacionou o carro e se apressou.

– Que aconteceu, dona Maria Emília? Aqui, tão cedo!

A porta do quarto estava entreaberta. Ela ainda dormia. Debruçada e bem baixinho, respondeu: “Sim, mãe, vamos pra casa”. 

Por Liane Constantino | http://distintolhar.blogspot.com.br

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