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Seu universo pessoal é balizado pela música*

Por Lúcia Nascimento |  lucia@adeva.org.br

Marcela Trevisani é musicista, compõe, canta e ensina musicografia braille

“A música me salvou e eu faço da minha vida uma música e, da música, a minha vida. Tenho ouvido musical absoluto, não preciso procurar a nota, ela vem a mim naturalmente.”

Assim se apresenta Marcela Cristina Perestrello Trevisani, 32, aos leitores do jornal CONVIVA. Ela é musicista, cantora, compositora, professora de musicografia braille e musicalização infantil, com vinte e dois anos dedicados ao piano. 

Sua história
Marcela ficou cega por ter ficado exposta a oxigênio artificial na incubadora. “Mas tive uma infância normal, fui peralta como toda criança.” 

Logo pequena, incentivada pela mãe, Elizabeth, “que era uma excelente violonista”, mergulhou de cabeça na música. “Eu gostava de ouvir as vinhetas dos programas de rádio, de televisão e reproduzir nos meus quatro pianinhos de brinquedo. Já sabia organizar os tons, mas não sabia nada de teoria musical.” 

Aos 10 anos de idade, essa brincadeira foi levada a sério. “Um dia, dona Santa, que seria minha primeira professora de música, passando perto de casa, me ouviu e quis saber quem estava tocando. Minha avó-mãe, Dona Dorotéia (foi ela quem me criou depois que minha mãe morreu), convidou-a para entrar. Ela entrou, escutou e intuiu meu dom. Por não termos condição financeira pra pagar uma escola, tia Santinha me ensinou violão, piano, teclado e flauta doce de graça na casa dela. A primeira música que toquei com técnica foi ‘Tema da Vitória’, a música do Airton Senna, meu ídolo.” 

Fora de casa
Depois deste início, Marcela frequentou vários conservatórios e sempre se destacou, mesmo sem saber teoria musical. “Mas sofri muito preconceito e discriminação nessas escolas e, por ser cega, não recebi nenhum certificado.”

Simultaneamente, ela tocava e cantava em restaurantes, igrejas católicas e evangélicas. “Meu primeiro contato com a música gospel foi em 1994.”

Marcela estudou no Instituto de Cegos Padre Chico e, ali, foi coralista, integrou o grupo de flauta doce e fez todos os cursos de musicografia braille com a professora Isabel Bertevelli. “Em 1999, gravei um CD como aluna e integrante do extinto coral do Instituto que foi um sucesso!”

De aluna a professora
Em 2014, já formada em pedagogia, ela voltou ao Padre Chico como professora de musicografia braille, flauta doce, musicalização infantil e revisora braille

“Aos meus alunos, costumo apresentar os mais diversos estilos musicais. Também trabalho muito com ritmo, jogos, palavras cantadas e pulsação, para as crianças controlarem a ansiedade.” 

Marcela já foi também voluntária no Centro de Formação e Acompanhamento à Inclusão (Cefai) da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. “Lá, eu aprendi a alfabetização na prática. Mas eu queria uma alfabetização por música, então, fui cursar pedagogia.”

Artista profissional
Com participação solo em eventos, restaurantes e bares, Marcela toca ao piano de Caetano Veloso e Djavan a Iron Maiden e Nirvana, entre outros artistas populares. “Nas minhas apresentações, gosto de colocar o meu jeito, mas sem mudar as principais características do arranjo.” O repertório é amplo e todo voltado para o cliente. “Eu não tenho um repertório fixo, não trabalho com lista; o que eu não sei, corro atrás.” 

Mas só agora, e aos poucos, Marcela está voltando às apresentações públicas. “Tive duas perdas de movimento por tenossinovite, causada pelo esforço para tocar piano e escrever em máquina braille.”

O futuro
Em 2015, Marcela foi aceita no Conservatório de Tatuí [Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, da cidade de Tatuí (SP)] onde, atualmente, está cursando musicografia. “Eu pretendo estudar piano outra vez, fazer tudo o que já sei, só para ter uma comprovação do que aprendi. Acho que ainda não cheguei onde quero chegar.” 

E todas estas múltiplas atividades se completam com a dedicação ao filho de quatro anos, o Daniel. “Ele é a alegria da minha vida, para quem já compus duas músicas.”

* As informações, declarações e opiniões emitidas pelos entrevistados nesta seção são de sua inteira responsabilidade e não traduzem o ponto de vista da ADEVA ou da equipe editorial do jornal CONVIVA.

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